São Paulo costuma ser associada a concreto, grandes avenidas e milhões de habitantes. Mas existe uma outra cidade dentro da cidade: uma São Paulo que produz alimentos, preserva áreas verdes e mantém agricultores trabalhando em diferentes territórios.
Foi esse cenário que ganhou destaque em um dos painéis da Bio Brazil Fair e Naturaltech 2026, ao reunir representantes do poder público e da agricultura familiar para discutir como a maior cidade do país está redesenhando sua política alimentar.
A pergunta que guiou a conversa parecia simples: é possível fazer agricultura em uma megacidade?
Os dados, as experiências apresentadas e a realidade de quem produz em Parelheiros mostram que sim — e que essa produção pode cumprir um papel importante na segurança alimentar, na geração de renda e na sustentabilidade do território.
Participaram do painel Felipe Oliveira, coordenador de Agricultura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET); Mariana Yamamoto, coordenadora de Segurança Alimentar da Secretaria Executiva de Segurança Alimentar e Nutricional e de Abastecimento (CESANA); e Alexandre Eduardo, agricultor orgânico de Parelheiros. A mediação foi de Aline Cardoso, presidente do Instituto Impulso Brasil.
Uma cidade que também produz alimentos
São Paulo possui 44% de seu território formado por cobertura vegetal, o equivalente a mais de 194 milhões de m² de áreas verdes, segundo dados da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA).
Dentro desse território, existe também uma atividade agrícola que ainda é pouco conhecida por grande parte da população.
Segundo Felipe Oliveira, o programa Sampa Mais Rural começou a operar em 2022 e foi instituído oficialmente pela Portaria 17 de 2024. Atualmente, o programa identifica cerca de 4.200 locais que praticam algum tipo de agricultura — urbana, periurbana ou rural.
Desse total, aproximadamente 770 recebem atendimento direto do programa e 480 contam com visitas mensais estruturadas de assistência técnica.
A proposta é reconhecer e fortalecer uma atividade que já existe no território, conectando produção, assistência técnica, comercialização e políticas públicas.
Agricultura e segurança alimentar no mesmo circuito
Um dos principais pontos apresentados durante o painel foi a relação direta entre agricultura urbana e segurança alimentar.
Para Mariana Yamamoto, as duas agendas não devem ser tratadas como políticas isoladas. Elas fazem parte de um mesmo circuito: produzir, distribuir e garantir acesso a alimentos de qualidade.
A definição utilizada pela CESANA considera segurança alimentar e nutricional como o direito de todas as pessoas ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, considerando práticas econômica, ambiental e culturalmente sustentáveis.
É uma visão que amplia a discussão para além da disponibilidade de alimentos.
Também entram nessa equação onde o alimento é produzido, como chega às pessoas, quem consegue acessá-lo e quais condições existem para que os agricultores permaneçam produzindo.
Do produtor ao território
O Sampa Mais Rural trabalha com produtores de pequena escala, especialmente aqueles ligados à agricultura de base agroecológica e orgânica.
Uma das estratégias apresentadas por Oliveira é justamente dar visibilidade a quem produz.
O programa utiliza um sistema de identificação territorial com diferentes tipos de placas: verde para produtores, vermelha para pontos de comercialização, laranja para turismo rural e azul para iniciativas relacionadas a políticas públicas.
O mapeamento ajuda a tornar visível uma dimensão agrícola que muitas vezes passa despercebida em uma cidade marcada pela urbanização.
E quem vive essa realidade diariamente consegue traduzir o impacto dessa política de maneira ainda mais concreta.
Quando os números ganham rosto
Agricultor de Parelheiros, Alexandre Eduardo trouxe ao painel a perspectiva de quem está no campo.
Ele relatou a rotina de acordar de madrugada, preparar a produção e percorrer a cidade para entregar alimentos.
Entre alfaces, couves e coentros, existe uma dimensão que não aparece apenas nos indicadores econômicos: a construção de relações entre quem produz e quem consome.
Para o agricultor, ser reconhecido no momento da entrega, perceber que os produtos têm procura e acompanhar sua comercialização representa também uma forma de pertencimento ao território.
É nesse ponto que a política pública deixa de ser apenas um programa e passa a interferir diretamente na vida de quem produz.
Deserto alimentar, pântano alimentar e o desafio do acesso
A discussão também avançou para um dos principais desafios das grandes cidades: o acesso desigual à alimentação de qualidade.
Durante o painel, Mariana Yamamoto apresentou dois conceitos importantes para entender esse cenário: o deserto alimentar, caracterizado pela dificuldade de acesso a alimentos de qualidade, e o pântano alimentar, marcado pela oferta excessiva de produtos ultraprocessados.
Segundo Yamamoto, determinados territórios de São Paulo convivem com as duas situações simultaneamente.
Nesse contexto, uma única iniciativa dificilmente é suficiente. A instalação de uma feira livre, por exemplo, não necessariamente altera sozinha a realidade alimentar de um território.
A estratégia adotada pelo município envolve diferentes programas e equipamentos que atuam de forma complementar.
Uma rede de iniciativas para ampliar o acesso
Segundo dados apresentados no painel, a rede da CESANA inclui:
- 26 mil refeições diárias por meio da Cozinha Escola;
- 15 mil marmitex distribuídos diariamente pela Cozinha Cidadã em territórios vulneráveis;
- 5.500 cestas básicas entregues diariamente pelo Cidade Solidária;
- Um Banco de Alimentos que recebe produtos fora dos padrões estéticos normalmente exigidos pelo varejo e os direciona para organizações cadastradas.
É o caso de alimentos que continuam próprios para consumo, mas que podem ser descartados por características visuais ou de padronização — como frutas fora do tamanho esperado ou vegetais com formatos diferentes.
O objetivo é fazer com que esses alimentos permaneçam dentro da cadeia de consumo e cheguem a quem precisa.
Um recorde que chama atenção — mas não encerra o problema
Um dos dados mais comentados durante o painel foi um recorde registrado pelo Guinness World Records.
Em 24 horas, São Paulo distribuiu 933,8 toneladas de alimentos, com a operação acompanhada por 1.500 fiscais.
O requisito para estabelecer o recorde era superar 500 toneladas.
Apesar da dimensão do resultado, Mariana Yamamoto fez uma ressalva importante: um recorde não significa que as desigualdades alimentares estejam resolvidas.
O desafio é estrutural e envolve diferentes dimensões sociais, econômicas e territoriais.
Produção local também significa geração de renda
Para os agricultores, criar canais de comercialização é uma das partes fundamentais dessa estratégia.
Segundo Felipe Oliveira, nos cinco meses anteriores ao painel, seis agricultores haviam comercializado mais de R$ 80 mil por meio do Armazém Solidário, gerando cerca de R$ 10 mil mensais por esse canal.
O projeto ainda está em fase piloto, iniciado na zona sul da cidade, com previsão de expansão para três unidades na zona norte e três na zona leste.
Outro dado apresentado chama atenção para o papel da assistência técnica: mais de 90% dos agricultores que ingressaram no Programa de Aquisição de Alimentos, cujo edital foi lançado em dezembro de 2025, são atendidos pelo Sampa Mais Rural.
Nesse modelo, profissionalizar o agricultor não significa necessariamente transformá-lo em uma grande empresa.
Significa criar condições para que ele consiga acessar mercados, cumprir requisitos de fornecimento, organizar sua produção e, quando necessário, contar com apoio técnico até mesmo para processos burocráticos.
Manter o agricultor no território
A discussão apresentada na Bio Brazil Fair e Naturaltech 2026 também revelou uma questão que vai além da produção de alimentos: a permanência do agricultor no território.
Segundo Alexandre Eduardo, quando a atividade agrícola deixa de gerar renda suficiente, aumenta o risco de venda das propriedades e, consequentemente, de avanço da especulação imobiliária.
Por isso, a proposta apresentada não se limita à construção de um cinturão verde ao redor da cidade.
A ideia defendida é a criação de uma espécie de “floresta alimentar”, em que produção, preservação ambiental, geração de renda e abastecimento estejam conectados.
Uma política alimentar pensada para atravessar gestões
Um dos desafios de qualquer política pública de longo prazo é garantir continuidade.
Nesse sentido, a parceria formal estabelecida entre SMDET e CESANA busca criar uma atuação integrada entre agricultura e segurança alimentar, com uma estrutura capaz de atravessar diferentes ciclos de gestão.
O resultado dessa estratégia ainda será construído ao longo dos próximos anos.
Mas a experiência apresentada na Bio Brazil Fair e Naturaltech 2026 já deixa uma reflexão importante: falar sobre alimentação nas grandes cidades também significa falar sobre território, renda, sustentabilidade, acesso e relações humanas.
São Paulo não é apenas uma cidade que consome alimentos.
Ela também produz, distribui, conecta e cria novas formas de pensar sua própria cadeia alimentar.
E, em uma das maiores metrópoles do mundo, essa transformação pode indicar caminhos para outras cidades que enfrentam desafios semelhantes.